Retorna ao sumário da edição especial

Sobre a rua de Machado de Assis brilhou um Cruzeiro do Sul

Victor Manzolillo de Moraes *
 

Exatamente, dez anos mais que eu mesmo (pronto, já me entreguei na bandeja, com casca e tudo), a Revista O Cruzeiro, da Empresa Gráfica do mesmo nome, por símbolo uma palmeira e um Cruzeiro do Sul, da cadeia de jornais, revista, rádios e televisoras dos Diários Associados de Assis Chateaubriand, estaria celebrando seus 75 anos de vida neste 10 de novembro. Dois dias antes, por uma iniciativa de emotiva concepção e objetiva finalidade – a de homenagear um grande e belo fantasma do jornalismo brasileiro e a de preservar-lhe o brilho para sempre no site www.memoriaviva.com.br - estará sendo lançada uma edição especial, no dia 8, com textos e depoimentos sobre a Revista, que faço questão de grafar com R maiúsculo. Elo de identidade nacional, com uma tiragem semanal gigantesca para o seu tempo (mais de 700 mil exemplares), a Revista O Cruzeiro foi o que é hoje a Rede Globo de Televisão, em termos de alcance e importância.

Sandro Fortunato, o idealista desse sonho duplo – o da homenagem ao velho e o da preservação no novo medium, a Internet, da vida de O Cruzeiro – acolheu-me neste espaço para um depoimento dos dias idos e vividos no imponente prédio da Rua do Livramento, no bairro da Saúde, no Rio, a mesma rua onde o menino Joaquim Maria, o nosso grande Machado de Assis, jogava bola na rua, fôlego curto já a prenunciar-lhe a saúde abalada, chutando para o alto bolas e sonhos da vida futura nas Letras nacionais. Ali, no mesmo endereço, muitos de nós também demos tropeções, boladas desajeitadas, pernas-de-pau, como eu, ou certeiras, como outros do quilate de David Nasser, Lêdo Ivo, Millôr Fernandes, Ziraldo, Dounê Espínola (também excelente cartunista), Glaucio Gill, Péricles (criador do Amigo da Onça, o precursor daquele tipo, o Muy Amigo do Jô Soares), Carlos Estevão, cartunista do Doutor Macarrão, Um Figurão, e... meu Deus, tantos nomes mais que nos faziam, aos novatos, babar de admiração.

Tudo começou para mim quando Paulina Kaz, mãe de um futuro Secretário da Cultura do Rio de Janeiro, decidiu organizar um Concurso Universitário Nacional de Literatura. Em sua edição de 7 de maio de 1960, quando eu cursava ainda o terceiro ano de Direito na PUC, aqui no Rio, a Revista divulgou os nomes dos vencedores. Foram 2152 candidatos de todas as regiões do país, competindo em três setores distintos: Ensaio (o tema era A Importância da Literatura para o Homem de Cultura Superior, Prêmio Paschoal Carlos Magno); Contos e Crítica Literária. Eu morava na Rua José Linhares 61, no Leblon. Fui acordado pelos amigos Müller Chaves, vizinhos de prédio, com recado de Sonia Doyle, filha do grande Plínio, não o latino, o carioca dos Sabadoyles literários, de que meu nome estava lá, entre os felizardos ganhadores. Corri para comprar a Revista nas bancas. Suas páginas, recortadas com carinho, amarelecidas pelo tempo, ainda hoje estão aqui, em minha parede, como a me recordar de que aquele tempo glorioso de O Cruzeiro, realmente, existiu. Quase não acreditava mais, até que Memória Viva teve a grande idéia de homenagear a famosa revista. Coube-me falar em nome dos vencedores no salão nobre do MEC, no belo prédio de Niemeyer, presentes o então Ministro da Educação e Cultura, Clóvis Salgado e, como fosse eu aluno da PUC, do seu Magnífico Reitor, Padre Artur Alonso, SJ. A honra de falar por todos decorreu do fato de que eu abiscoitara o primeiro prêmio em Ensaio (Viagem pelo Brasil, nas gloriosas asas, “amarradas com arame”, diziam os gozadores, do Lóide Aéreo Nacional; o segundo prêmio, em Contos (ganhei com o Vertigem, de clara influência hitchcoquiana, no cenário da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, pois foi o que pensava estudar antes de decidir-me pelo Direito e, depois, pela carreira diplomática), e, finalmente, mas nem por isso menos importante, com uma coleção de livros na premiação de Crítica Literária (sobre o Vila dos Confins, de Mario Palmério). Assim tri-campeão, aos 20 anos, imaginem minha exultação com a presença, ainda, das menininhas bonitas, normalistas do Instituto de Educação, pedindo autógrafo àquele jovem com topete alto e pontudo como uma marquise à la Elvis Presley. Daí o convite de Paulina Kaz para que fosse estagiar em O Cruzeiro, no Departamento Cultural que ela chefiava, passando ali a ser o sub-chefe. Promovíamos, inter alia, até lançamento de discos, como aquele da Orquestra e Coral da Universidade do Paraná, nos belos jardins do Palácio Guanabara, nos tempos do Carlos Lacerda.

Depois do Departamento Cultural, vizinho de porta dos geniais Ziraldo, Millôr & altíssima companhia, tanto chateei os grandes da casa que, por óbvia generosidade do jornalista-romancista José Cândido de Carvalho, Chefe de Redação (autor, entre outros, de O Coronel e o Lobisomem, cuja primeira prova ajudei a rever), consegui passar a trabalhar na redação de O Cruzeiro Internacional, editado em espanhol, com grande circulação e prestígio na América Latina e na Espanha. Depois de Zé Cândido, um figuraço, eterno cigarro na boca, magro, quando Campos ainda não dava petróleo, só gênios como ele (e pai de um colega meu no Itamaraty). Dava-lhe carona no meu bravo Renault Dauphine azul, o leite Glória-desmancha sem bater, depois do expediente, assumiu a redação outro grandes: Odylo Costa, filho, que me suportou bravamente. Afinal de contas, e não o digo por modéstia: eu devia ser mesmo um chato, metido a escritor, o que hoje se chama de mauricinho, filho de General do Exército, cursando a PUC e fazendo do jornalismo um passatempo, porquanto já de olhos fitos no Itamaraty, para onde entraria em 1966, justo quando começávamos a ser indenizados e dispensados pela Revista: era o início do fim de O Cruzeiro.

Mas, voltemos a falar dos vivos, dos tempos áureos, quando se ofereciam belas festas de Natal nos salões do terraço, grande concentração de escritores e jornalistas (nós, novatos, embasbacados), o doce sorriso de Rachel de Queiroz, a presença de sua prima Dinah Silveira de Queiroz, depois esposa do Embaixador Dário Castro Alves, meu futuro chefe no MRE); os cabelos ainda negros do poeta e hoje Acadêmico Lêdo Ivo; o robusto Herberto Salles, autor do cintilante romance “Cascalho”; as gargalhadas gostosas, fala de metralhadora do Ziraldo, a simpatia de seu jovem irmão Zélio com quem eu tirava fotos de anúncios para a revista A Cigarra, da mesma empresa. E... bem, é impossível citar tanta gente boa por metro quadrado ali no alto do prédio da Rua do Livramento! Depois de Odylo, abalado pelo assassinato boçal de seu filho, assumiria a Redação do Internacional outro jornalista-escritor, o Constantino Paleólogo, elegantíssimo, bigodinho aparado, testa alta, olhar inteligente, fumando de piteirinha, assessorado pelo querido Orlando Caramuru e por outro greco-brasileiro, também das bandas de Angra dos Reis, o Constantino Koracakis. Constantino, o Paleólogo, autor de um ensaio de que nunca me esqueci (Poe, Machado e Dostoiesvsky à Luz da Psicanálise), e já bolando um outro título (Derrapagem no Túnel - creio que sua morte prematura, tão moço, nos privou desse livro, creio que já começado), me falava desse novo projeto a bordo de um luzidio Aero Willys cor-de-vinho, novinho em folha, carraço na época, a caminho do Largo do Machado depois do expediente. Eu teria que fazer baldeação depois, pegando um ônibus de lá para o Leblon. Na sede da empresa na rua mais além do Túnel Engenheiro Ricardo, espécie de túnel do tempo, ligando a prosaica Central do Brasil ao Parnaso da nossa Rua do Livramento, trabalhava entre tantos grandes sujeitos, brilhando no jornalismo escrito e fotográfico (neste último, José Medeiros, Indalécio Wanderley, Helder Martins de Moraes, hoje Embaixador na Ucrânia, antes fotógrafo de A Cigarra, revista feminina comandada por Dona Lili de Oliveira, aprendi a prezar, tantos outros, como o jornalista e dramaturgo Glaucio Gill, outro que nos deixou cedo demais, a quem foi dedicado o teatro de Ipanema com seu nome (Toda donzela tem um pai que é uma fera); sem me esquecer do Barreto, o pai, fotógrafo e redator esportivo. Já o famoso David Nasser, a quem os íntimos, ou que por isso queriam passar-se, diziam, apenas, o Davi, era filé mignon demais para nós, ilustres desconhecidos. Bem, mas voltando ao O Cruzeiro Internacional, menos conhecido do que a edição nacional, evidentemente. Ele, David Nasser, e o temido (mas bondoso, só fazia cara feia, pois era o defensor das finanças combalidas) Manuel de Oliveira não eram figurinhas fáceis ao acesso de novatos como eu, menos de 21 anos de idade. Uma última palavra sobre a fraternal e sui generis Redação do Internacional, em espanhol: praticamente ninguém (salvo os Chefes) era jornalista de formação. A maioria era constituída por exilados políticos, havia espanhóis, argentinos (o Carlos Lima fora piloto da Força Aérea de Perón, e o Professor Gelsi, como o chamávamos carinhosamente, fora alto funcionário do Ministério da Educação argentino). Havia um boliviano, dileto amigo até hoje, casado com brasileira, formado em Direito no Brasil, ora residindo em Sucre, o Felipe Trednnick-Abasto, que chegara ao Brasil a bordo do famoso trem que fazia a Madeira-Mamoré, ferrovia lendária e desconfortável, quando Felipe escapara das garras do Victor Paz Estensoro em seu conturbado e belo país andino, tão perto do Brasil, tão longe de Deus (que me perdoe a brincadeira, Deus é que tem salvado a situação por lá!). Os demais, tantos e tão bons amigos e profissionais, que me perdoem também: a lista de menções e lembranças carinhosas já vai longe demais.

Lembranças que se perdem -- ou que estavam destinadas a se perder por omnia saecula saeculorum -- na noite dos tempos, não fora esse belo e oportuno esforço do projeto Memória Viva, coordenado por Sandro Fortunato, e do qual tomei conhecimento pela coluna do Sergio Maggi, na seção de Informática do jornal O Globo. Talvez, e quase certamente o fiz, deixei de recordar passagens divertidas (como a do todo-poderoso Leão Gondim de Oliveira, semi-nu, apenas uma toalha branca na barriguinha indiscreta, recebendo massagens sobre uma cama elevada, sala de porta entreaberta aos nossos olhos gozadores; ou passagens tristes, como a de ver o nosso Velho Capitão, o nosso Duce, Fuhrer, Kaiser, o nosso Caesar Maximus, Assis Chateaubriand em cadeira de rodas, doente, definhando-se, enfermeira ao lado, interpretando-lhe a fala inaudível). Que me perdoem todos os que, involuntariamente esquecidos por este escriba menor, ficaram sem referência.

Felicidades, velho e bravo O Cruzeiro, tanto o nacional como o internacional, morituri te salutant, ave! Sua memória ficará nas graciosas páginas, a cores e, mais que nunca ao vivo, que Memória Viva está salvando para a alegria de todos nós. Aos responsáveis por esse esforço tão raro entre nós, gente de curta memória, o muito obrigado de todos os sobreviventes daquele vasto, poderoso Titanic, no seu oceano imenso de ágeis reportagens, mundo fluido de sólidos escritores e jornalistas, mundo raro, mas agora, felizmente, arrancado das profundezas do Atlântico onde jazia esquecido, de volta à tona da memória, novamente entre nós, a navegar com todas as luzes acesas, orquestra de bordo soando forte, cheia de nova vida, nas ondas da Internet.

* Victor Manzolillo de Moraes, 65 anos, é escritor, jornalista, advogado e diplomata.
Escreveu este texto para a edição comemorativa on line dos 75 anos da revista O Cruzeiro.

O Cruzeiro on line é um trabalho de preservação histórica do site Memória Viva